por Katia Simões

Colaboração será a palavra da vez no novo universo do trabalho, onde máquinas e pessoas dividirão cada vez mais espaço

Em um passado não muito distante, os passageiros sentiam fortes arrepios ao ouvir: “o avião está no piloto automático”. Hoje, na maior parte do tempo, sistemas computadorizados comandam as aeronaves, restando ao piloto e ao copiloto assumirem os controles durante as manobras de decolagem e pouso. Mas, podem se arrepiar de verdade os que têm medo de avião porque em menos de três décadas nem isso eles farão. Os testes com aviões 100% autônomos já são realidade. A profissão é uma das dezenas que deverão desaparecer com o avanço da automação industrial e disseminação do uso da tecnologia nas mais diferentes áreas. 

Ao contrário dos movimentos anteriores, porém, não só a indústria assistirá à mudança de seus postos de trabalho mais intensamente, mas, também, as áreas da educação, saúde, transporte, varejo, agricultura, comunicação, entre outras. Estima-se que aproximadamente 8% de todas as posições de mercado de trabalho em 2030 serão postos que não existiam antes. A automatização é certa e a substituição de pessoas por softwares será muito rápida, principalmente em países mais desenvolvidos como Japão, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos, crava a maioria dos especialistas. 

Estudo feito pela consultoria PWC adverte que um terço das posições ocupadas nestes países podem ser substituídas por robôs até 2030. Pesquisa feita pelo Instituto Sapiens sobre o impacto da revolução digital no mercado de trabalho segue na mesma linha e projeta mudanças radicais em apenas cinco anos. De acordo com o levantamento feito pelos franceses, cerca de 2,1 milhões de trabalhadores concentrados em cinco áreas básicas poderão ver seus empregos desaparecerem. Entre eles, funcionários de bancos e seguradoras; profissionais da área de contabilidade; secretárias de escritórios, agentes de manutenção, caixas de lojas e de supermercados.

Não se trata de exagero, garantem os estudiosos. “Qualquer tarefa que seja rotineira ou previsível será feita por um algoritmo matemático dentro de cinco ou dez anos”, afirma o americano John Pugliano, autor do livro Os robôs estão vindo, um guia de sobrevivência humana para lucrar na era da automatização. Tamanha velocidade assusta, até porque a sociedade não vivenciou transformações tão intensas nem mesmo com a chegada da Revolução Industrial. “O desafio é que esta mudança, por ser rápida e profunda, tem muitas chances de destruir empregos mais rapidamente do que criar outros”, observa Cezar Taurion, presidente do Instituto de Inteligência Artificial Aplicada i2a2. “Nas revoluções anteriores, funções que se tornaram obsoletas foram substituídas por outras, também executadas por pessoas. Mas agora será diferente”.

A diferença, dizem os especialistas, está nos pilares da transformação, que permitem às máquinas executar tarefas antes impensáveis, com muito mais eficiência, agilidade, precisão e assertividade do que a mão de obra tradicional. De acordo com o estudo The Future of Jobs Report 2018, preparado pelo Fórum Econômico Mundial, são quatro os pilares tecnológicos que norteiam as mudanças: a internet móvel de alta velocidade, Big Data, Inteligência Artificial (IA) e computação em nuvem.

O impacto do aumento do uso da Inteligência Artificial no mercado de trabalho divide as opiniões até mesmo das grandes consultorias globais. De acordo com uma pesquisa divulgada pela Gartner, o uso da IA levará à criação de cerca de 2 milhões de novas posições de trabalho até 2025. Esse número envolve não apenas empregos para engenheiros de software, mas também trabalho sem especialização, como o treinamento dos robôs para reconhecer objetos ou atividades humanas, por exemplo. Os investimentos na tecnologia deverão alcançar a cifra de US$ 77,6 bilhões em 2022, mais do que o triplo previsto para 2018, segundo a IDC.

Na mesma proporção do crescimento dos investimentos, aumentam as chances de extinção de muitos postos de trabalho na visão da McKinsey. Estudo divulgado pela consultoria em 2017 alerta que a Inteligência Artificial ameaça 50% dos empregos nos Estados Unidos e na Europa. Nos países emergentes poderá colocar em risco 70% das posições de trabalho. 

“Não acredito que a Inteligência Artificial irá substituir os gestores, mas gestores que sabem fazer um bom uso da tecnologia certamente substituirão os que não sabem”, afirma Ricardo Basaglia, diretor executivo da Michael Page, consultoria global de recrutamento especializado.

Há luz no fim do túnel. De acordo com a pesquisa “Procuram-se humanos: os robôs precisam de você”, realizada pelo ManpowerGroup, envolvendo 19 mil empregadores em 44 países, 81% das companhias planejam aumentar ou manter o número de funcionários como resultado da automação pelo terceiro ano consecutivo. No lugar de reduzir as oportunidades de emprego, as organizações estão investindo na tecnologia digital, transferindo tarefas a robôs e criando novas posições de trabalho. Simultaneamente, as organizações estão investindo na maior qualificação das equipes, a fim de que desempenhem funções novas e complementares às executadas pelas máquinas. Ainda segundo o estudo, dos 64% das empresas que irão automatizar tarefas nos próximos dois anos, 29% irão criar mais empregos, 6 pontos percentuais a mais do que as que não planejam a automação. 

“Em um primeiro momento, o cenário parece assustador e o é, na medida que muitas profissões estão com os dias contados. Mas, por outro lado, tem sua faceta positiva”, diz Marco Stefanini, CEO global da Stefanini. “A chegada da tecnologia traz ameaças, mas também várias oportunidades, sendo que a principal delas é a melhora da qualidade de vida das pessoas. Para atuar no mundo digital, a área de Exatas propicia, por exemplo, uma série de skills que permitem estabelecer novos modelos de negócios, com a adoção de soluções ágeis para acelerar processos com mais eficiência”.

O certo é que a tecnologia destrói empregos antigos antes de criar empregos novos. Porém, não aniquila e nem inibe as habilidades humanas. “Os talentos sempre terão espaço na economia e no mercado”, afirma Basaglia, da Michael Page. “Precisamos parar de proteger empregos para começar a proteger os empregados”. O executivo destaca, ainda, que menos de 5% dos empregos atuais são capazes de serem 100% automatizados. Mas, de cada 10 empregos atuais, em seis a tecnologia tem capacidade para automatizar até 30% das atividades desempenhadas. 

“O mundo do trabalho irá mudar, sim, porém não de forma radical e na velocidade que os especialistas podem sugerir”, declara Basaglia. Como justificativas para uma transformação mais cadenciada, ele aponta a velocidade da implementação e inserção das novas tecnologias, nem sempre tão aceleradas como se prega; custo-benefício da troca de trabalhadores por automação; aumento da influência e valor da entrega do serviço; quantidade e qualidade de trabalhadores preparados para a função versus salário a ser pago.  

 

Novas habilidades

Em um ponto, porém, os especialistas e estudiosos do futuro concordam: os empregos menos suscetíveis à eliminação pela tecnologia são os ligados à gestão de pessoas, experiência aplicada e que envolvem interação social, habilidades que as máquinas não são capazes de desempenhar, pelo menos até agora. “Quem demonstrar competências cognitivas avançadas, criatividade, capacidade para processar informações complexas, boa comunicação, além de facilidade de adaptação, simpatia e bons níveis de inteligência emocional tendem a se colocar mais rapidamente”, afirma Cristiano Alves, Head de BPO e Inovação do ManpowerGroup. “O futuro será de empregos que requerem conhecimentos de negócios e de tecnologia, trabalhando de forma colaborativa o potencial humano e a inteligência artificial”.

E não é preciso fazer projeções, porque isso já acontece hoje com a figura do cientista de dados, um profissional multidisciplinar, cotado a peso de ouro e escasso no mercado. “É o cara que programa, faz design de alto nível, sabe trabalhar com base de dados, mas ao mesmo tempo conhece a arte de fazer negócios, lê e escreve bem, domina mais de um idioma e ainda constrói relações”, afirma Pierre Lucena, presidente-executivo do Porto Digital. “Na linguagem popular, é o cara que assovia, canta e chupa cana ao mesmo tempo, exibe barriga de tanquinho e ainda se diverte”.

Na visão de Mario Rosa, Head of Business do Echos, laboratório de inovação, talvez a mudança mais imediata seja a de comportamento. “As pessoas precisam aprender a deixar de atuar de forma reativa e se tornarem mais proativas”, afirma. “Imaginar quais serão os novos cenários e usar a tecnologia para chegar lá. Ninguém quer mais passar horas fazendo atividades repetitivas”. 

Mas não basta querer, é preciso, também, fazer um movimento nessa direção, estar aberto ao novo, pensar de maneira diferente e criativa. “O que cada vez mais se exigirá das pessoas é atitude empreendedora, é curiosidade, é buscar conhecimento por iniciativa própria, sem que seja demandado”, afirma Daniele Brasil, gerente de Recrutamento e Seleção da Stefanini. “No campo da tecnologia tem-se mais facilmente esse olhar do que em áreas administrativas”. 

A mudança de conceitos e atitudes passa, também, pela capacidade de trabalhar de forma colaborativa, pois a criatividade é um esporte coletivo; pela habilidade de criar e produzir a partir da diversidade, e pela capacidade de construir conexões entre pessoas e pessoas e, também, entre pessoas e máquinas. “O grande desafio será não recrutar, mas gerenciar pessoas operando em diversas partes não só da cidade, mas do país e do mundo, garantindo-lhes qualidade de trabalho e engajamento contínuo”, adverte Daniele Brasil.

Mas será que as empresas estão preparadas para pensar e agir de forma diferente não apenas com a adoção de novas tecnologias, mas, principalmente, na oferta de um cenário capaz de atrair e reter esses novos talentos? Na visão de Alves, da Manpower, não. “Os millenials, que já respondem por uma boa parcela da força de trabalho, têm uma relação diferente com o emprego em relação às gerações passadas”, afirma. “São movidos a desafios, porém desde que estes estejam alinhados com os propósitos que acreditam e o momento da carreira”. 

Estudo feito pela Manpower revela que 87% deles estão abertos a novas formas de trabalho – jornada reduzida, pagamento por produção, contratos e não carteira assinada – porém, apenas 32% das empresas oferecem essas possibilidades alinhadas com propósitos. “As empresas precisam acelerar o ritmo para acompanhar essa mudança de comportamento e ter mais engajamento”, reforça Alves. 

Não basta, contudo, acelerar o ritmo, mas, principalmente, entender a mudança. Robôs e pessoas irão trabalhar juntos, o que exigirá um novo perfil de gestão e tirará as pessoas da área de conforto. “As organizações precisam entender esse movimento”, diz Alves. “Delegar ao robô as atividades rotineiras e mais operacionais para que o ser humano possa dedicar tempo e energia às atividades estratégicas”. Na visão de Rosa, do Echos, os modelos organizacionais precisam ser revistos e cabe aos departamentos de recursos humanos ser o facilitador dos novos modelos de interação, de colaboração.

Quem também tem de correr são as universidades, não só no redesenho de sua grade curricular mas na forma de ofertar conhecimento. “As universidades trabalham com uma agenda do século passado enquanto o século XXI pede mudanças muito rápidas”, afirma o presidente do Porto Digital. “O modelo praticado ainda é o da Revolução Industrial, preparando pessoas para atuar em caixinhas, não de forma colaborativa”.

A opinião e compartilhada por Pietro Delai, gerente de consultoria e pesquisa da IDC Brasil. “O ritmo da adoção da tecnologia vem crescendo exponencialmente, o que não permite que a pessoa se forme por completo”, declara. “O que iremos demandar em tecnologia nos próximos cinco anos não se ensina hoje na universidade”. 

Como consequência, as empresas estão se tornando cada vez mais construtoras de talentos. As organizações já perceberam que não podem mais encontrar talentos prontos e disponíveis, daí a disposição de 84% dos 19.000 empregadores participantes do estudo da Manpower de melhorar a qualificação de sua força de trabalho até 2020. 

“A carência de talentos não é uma realidade apenas no Brasil, é global”, afirma Marco Stefanini. “A carência maior está nas novas tecnologias, onde ainda não é possível formar novos profissionais”. A Stefanini forma mais de mil pessoas por ano. “Trabalhamos para melhorar quesitos nos quais as universidades ainda estão defasadas”, destaca o CEO. Isso não significa, porém, que a companhia esteja distante da academia. Pelo contrário. A Stefanini tem afinado cada dia mais suas parcerias com universidades e escolas técnicas de todo o país, em muitos casos, realizando programas conjuntos.

Recentemente, a empresa e o INSEAD, referência global em programas de MBA, promoveram a nova edição do curso de transformação digital no campus de Fontainebleau, próximo a Paris. Foram quatro dias de imersão para que executivos C-Level discutissem a cultura de inovação e como implementá-la no dia a dia das organizações. “O curso trata muito mais da mudança de mindset do que de tecnologia, pois o mais importante neste momento é a mudança do modelo de negócios”, destaca Guilherme Stefanini, head de Novos Negócios da Stefanini. 

Diante da nova realidade e de tantas dúvidas, não é errado dizer que o futuro do emprego já chegou, trazendo a certeza de que as relações de trabalho irão se transformar para acompanhar a dinâmica da economia 4.0.  

 

Aproveite antes que acabe

Até 2030, profissões como piloto de avião e analista de investimentos tendem a desaparecer.

PILOTO DE AVIÃO – A tendência é que a profissão seja automatizada entre 2025 e 2030. Atualmente, a interferência humana é forte nas etapas de decolagem e pouso, porém, os testes com aviões 100% autônomos já estão sendo realizados.

ANESTESISTA – Ganhos de eficiência e custo estão sendo calculados milimetricamente. A Johnson & Johnson desenvolveu o robô Sedasys, que aplica anestesia em pacientes que serão submetidos a tratamentos mais simples em clínicas e hospitais, liberando o médico para acompanhar vários procedimentos ao mesmo tempo. O custo por procedimento deverá baixar de US$ 2000 para US$ 150.

ANALISTA DE INVESTIMENTO – De acordo com o autor futurista Martin Ford, um terço das vagas de trabalho nos bancos de investimento em Wall Street já desapareceram desde o ano 2000. Os robôs que operam em alta frequência (HFT) representam mais de 50% das operações diárias do mercado americano de ações. A busca não é mais pelo melhor analista, mas pelo melhor algoritmo, capaz de entender as condições de mercado e tomar decisões de investimento.

CONTADORES – Não é errado dizer que os contadores ainda estão envolvidos com tarefas que podem ser automatizadas. Mas isso será por pouco tempo. Com o uso das criptomoedas e registro de operações em Blockchain o conceito de contabilidade desaparecerá, pois todas as transações serão públicas e impossíveis de serem fraudadas.

ASSISTENTE JURÍDICO – Com a ajuda da Inteligência Artificial já é possível realizar tarefas repetitivas de análise de processos e termos jurídicos com eficiência e precisão muito maiores do que quando as mesmas tarefas são realizadas por humanos.

ANALISTA FINANCEIRO – As pessoas não conseguem mais competir com softwares de análise financeira que usam Inteligência Artificial para reconhecer tendências em dados históricos a fim de prever os movimentos futuros do mercado.

CORRETORES DE SEGUROS – Quase todas as tarefas realizadas por esses profissionais já podem ser executadas por computadores, usando Big Data e Machine Learning.

 

Novidades pela frente

TREINADOR DE ROBÔS – Os programadores são hoje profissionais muito demandados para “ensinar” os robôs com o uso de algoritmos. Porém, em um futuro próximo, os algoritmos que controlam as funções a serem executada pelas máquinas se tornarão padronizados. Assim, as atividades encarregadas de interagir com eles poderão ser viabilizadas por trabalhadores menos especializados.

CONTROLADOR DE TRÁFEGO DE DRONES – Até 2040, o uso de drones deverá ser regulamentado por um sistema de tráfego aéreo semelhante ao que os pilotos de avião usam. Assim como acontece hoje com os aviões, haverá alguém coordenando, monitorando e instruindo drones.

DESIGN DE REALIDADE AUMENTADA – Estima-se que em 20 anos os arquitetos, engenheiros e designers que trabalham com realidade aumentada responderão pela direção de muitas áreas, desde treinamento de trabalho até outdoors de marketing.

GERENTE DE LOJA VIRTUAL – As pessoas estão fazendo compras on-line, mais ainda desejam conexão humana. No futuro, as marcas tentarão inserir a “humanidade” em seus espaços digitais, baseando suas estratégias sempre em dados fornecidos pela automação e pela robotização.

ESPECIALISTA EM COMPUTAÇÃO QUÂNTICA – A computação tradicional usa bits, unidades de informação que podem assumir valor de 0 a 1. A computação quântica, por sua vez, utiliza o quibits que, baseados na teoria quântica, podem assumir mais de um valor simultaneamente. Uma máquina quântica seria capaz de fazer cálculos e resolver problemas complexos que a computação tradicional não é capaz. Com o desenvolvimento e aperfeiçoamento da computação quântica a demanda por profissionais capacitados será grande.

 

7 maneiras de garantir que os humanos possam se unir às máquinas:

  1. Lembrar do peso da liderança: os líderes precisam ser os promotores da mudança, inovação e cultura.
  2. Garantir que as mulheres sejam parte da solução: em 2017, elas representavam 50% da força de trabalho e se qualificavam mais do que os homens.
  3. Entender o que a força de trabalho quer: até 2025, os millenials e a geração Z representarão mais de dois terços da força de trabalho.
  4. Conhecer as capacidades de seus colaboradores: as organizações precisam usar avaliações, dados limpos e desempenho preditivo para aproveitar talentos de maneira mais eficaz.
  5. Promover treinamento personalizado: as empresas devem substituir as abordagens de formação generalizadas para estratégias e orientações direcionadas para desenvolver competências críticas e com grande demanda em sua força de trabalho.
  6. Apostar em competências humanas: as habilidades do ser humano são mais difíceis de serem desenvolvidas do que as habilidades técnicas.
  7. Permitir que os humanos se somem à tecnologia: as empresas devem melhorar as qualificações de seus profissionais continuamente, além de desenvolver talentos. Devem analisar e reavaliar as habilidades que precisam para garantir que o talento humano complemente a automação.

 

Fonte: Manpower

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