Brasil ・ Há 36 dias

Na era da IA, sai na frente quem organiza dados e decide no momento certo

A discussão sobre Inteligência Artificial nas empresas costuma seguir um roteiro previsível. Começa pela escolha de modelos, passa por testes e pilotos e rapidamente chega ao tema da escala. A atenção se concentra no que é mais visível, onde a tecnologia aparece, enquanto o que sustenta esse avanço continua em segundo plano.

Um dado recente expõe esse desalinhamento. Apenas 7% das organizações acreditam que seus dados estão prontos para uso em IA, segundo levantamento da Harvard Business Review Analytic Services em parceria com a Cloudera. O número é baixo e revela que a maior parte das empresas tenta avançar em inteligência sem ter resolvido o que viabiliza esse movimento.
O problema não está na falta de dados, mas na forma como eles estão organizados — ou, em muitos casos, desorganizados.

Em muitas empresas, a informação segue dispersa em sistemas que não se integram de forma fluida, com padrões distintos e níveis de qualidade irregulares. Isso compromete a leitura do negócio e fragiliza a confiança nas análises. Sem confiança, o uso recua. E, quando o uso recua, a inteligência perde relevância.

Ainda assim, persiste a expectativa de que a tecnologia mais recente será capaz de compensar essas limitações. Não será. Modelos mais sofisticados aumentam a dependência de uma base bem estruturada. Quando essa base não acompanha, o ganho analítico não se transforma em resultado. Fica restrito a iniciativas específicas, que funcionam sob controle, mas não se sustentam quando expostas à operação.
Não surpreende, portanto, que tantos projetos não avancem além do piloto. Eles mostram potencial, mas não encontram sustentação para evoluir. Falta consistência para repetir, integrar e escalar o que foi desenvolvido sem depender de ajustes a cada nova aplicação.

Organizar dados deixa de ser uma etapa inicial e passa a ser o próprio ponto de partida. Não se trata apenas de estruturar informação, mas de garantir coerência entre áreas, continuidade nas análises e capacidade de reaproveitar o que já foi construído. É isso que sustenta decisões mais previsíveis e permite que a inteligência deixe de ser pontual.
Quando esse trabalho é feito com rigor, os efeitos aparecem de forma direta: menos retrabalho, menos ambiguidade e maior alinhamento interno. A empresa passa a operar com mais clareza e cria condições reais para ampliar o uso de IA sem depender de exceções.

Com o amadurecimento dessa base, surge uma nova camada de exigência. Ter dados organizados resolve uma parte importante do problema, mas não garante que o valor será capturado. A informação pode estar estruturada, os modelos mais precisos, mas isso não assegura que o conhecimento gerado vá influenciar decisões no momento em que ainda faz diferença.
A partir daí, o desafio muda de natureza. A questão deixa de ser apenas estruturar dados e passa a ser como transformar essa base em decisões que acontecem no tempo certo — sem fricção, sem atrasos e com impacto real no negócio.

(*) Filipe Cotait é CEO da Stefanini Data & Analytics.

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