Medicina Conectada

23 de Julho de 2019 por Beatriz Silva

Como as novas tecnologias estão salvando vidas e vão mudar o mundo nos próximos anos 

Mais de 39 milhões de pessoas no mundo têm deficiência visual, segundo a ONU. Desses casos, 80% são consequências de doenças curáveis, que podem ser identificadas por meio de um simples exame oftalmológico. O problema é que a maior parte da população com este tipo de doença está em locais remotos, onde muitas vezes equipamentos grandes e caros não chegam e o acesso a profissionais da saúde é praticamente inexistente. Como ajudar essas pessoas? 

Foi essa a questão que o cirurgião oftalmológico Andrew Bastawrous pensou quando se mudou para o Quênia com a sua família. Com base na experiência vivida no País, Andrew fundou a organização sem fins lucrativos Peek Vision. Assim, foi possível desenvolver um aplicativo para smartphone que permite testar a saúde ocular de qualquer pessoa, além de um hardware que pode ser acoplado ao dispositivo para avaliar a córnea tão bem quanto um equipamento muito mais caro e difícil de transportar. Além disso, o exame pode ser feito por qualquer um da comunidade, basta um treinamento rápido e simples. 

As informações coletadas são enviadas para médicos especialistas em qualquer parte do mundo, que dão o diagnóstico remotamente e fazem planos para o tratamento. Além disso, quando surge a oportunidade de tratamento, o paciente ou o líder comunitário recebe uma mensagem, permitindo a localização de forma rápida. “É só nas estatísticas que as pessoas ficam cegas aos milhões. Na realidade, cada um fica cego por si só. Mas agora, eles podem estar a uma mensagem de conseguir ajuda”, disse Andrew Bastawrous em uma de suas falas no TED, série de conferências com o objetivo da disseminação de ideias. Milhares de pessoas já foram beneficiadas pela solução em mais de 150 países.

Esse é um exemplo de como as inovações tecnológicas aplicadas à saúde podem mudar completamente a vida de pessoas pelo mundo todo. Por meio da telemedicina, médicos conseguem se conectar com pessoas nos locais mais remotos. Ao mesmo tempo, outras tecnologias podem ser incorporadas ao dia a dia ajudando na prevenção de doenças e garantindo uma maior qualidade de vida. 

De Hipócrates ao transumano

Foi por volta de 450 a.C., na Grécia Antiga, que Hipócrates, considerado por muitos o pai da medicina, deixou de lado superstições para colocar a medicina no caminho científico. De lá até então, diversos pesquisadores contribuíram para transformar a área da saúde, encontrando a cura de doenças graves e garantindo a longevidade da população.

Na tecnologia, os avanços nos últimos anos cresceram de forma exponencial. Inteligência Artificial, Internet das Coisas, Cloud, Impressora 3D e o 5G são algumas das soluções que vão revolucionar a sociedade como um todo, inclusive no campo da medicina. 

A Transformação Digital está diretamente ligada com a melhoria da qualidade e ampliação dos serviços médicos. É o que explica Chao Lung Wen, doutor em telemedicina e professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Os principais avanços relacionados à Saúde 4.0 estão ligados à telemedicina, que é a aplicação dos Recursos Digitais Interativos seguros para prover serviços médicos de qualidade, de forma ágil e humanizada”, ressalta. 

Por meio da telemedicina, pessoas de áreas remotas ou que trabalham em plataformas de petróleo, por exemplo, podem ter o acompanhamento médico adequado. Além disso, com o avanço das telecomunicações, também se torna possível a cirurgia a distância, com a ajuda de óculos de realidade virtual e um robô. 

Outra tecnologia que deve contribuir com a saúde nos próximos anos é o grafeno, um material feito de carbono que é 100 mil vezes mais fino que um fio de cabelo, 200 vezes mais resistente que o aço e considerado o melhor condutor elétrico já descoberto. Ainda em estudo, o grafeno poderá ser usado para o desenvolvimento de biosensores capazes de detectar doenças como o câncer, de forma muito eficiente.

Práticas como o biohacking, que mistura biologia com ética hacker, também ganham notoriedade no meio da saúde. Uma das aplicações mais conhecidas é a que permite descobrir todo o perfil genético de um indivíduo, com informações como a predisposição para doenças hereditárias, por meio de um simples teste de saliva. Mas há pessoas pelo mundo desenvolvendo implantes para o próprio corpo. O biohacker Tim Cannon, por exemplo, colocou em si um sensor de temperatura que se conectava a sua casa, permitindo um ajuste térmico adequado.

“Biohacking de uma certa forma está associada com a ideia de Trans-humanismo, que é a crença de que é possível alterar fundamentalmente a condição humana por meio do uso de tecnologias e fazer um ser humano superior. Quando aplicado de forma criteriosa, pode contribuir em processos reparativos de lesões e acidentes, em doenças degenerativas, genéticas ou decorrentes do envelhecimento. É preciso tomar cuidado para ter critério de uso”, explica Chao Lung Wen. 

É melhor prevenir do que remediar

Aplicativos para lembrar de beber água, tomar o remédio, ajudar em uma alimentação saudável, na rotina de exercícios ou para monitorar o sono já fazem parte da nossa vida. Eles ajudam na prevenção de doenças e, junto com tecnologias vestíveis, devem provocar uma mudança nos paradigmas do setor de saúde. “Antes o paciente apenas ouvia as orientações do médico. Com a Transformação Digital ele se torna um protagonista e passa a ser um consumidor informado sobre suas necessidades e obrigações”, explica o Dr. José Albani de Carvalho Júnior, médico intensivista há 30 anos e executivo da Stefanini Health.

Com a eficácia nas formas de prevenção, os gastos com saúde tendem a cair. De acordo com um estudo desenvolvido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), para cada dólar investido em prevenção, são economizados outros quatro.

Tecnologia que gera conhecimento

Para preparar o profissional da medicina do futuro, os centros de inovações das universidades estão desenvolvendo equipes interdisciplinares. A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), por exemplo, se uniu com a Escola Politécnica (Poli-USP) para desenvolver um projeto pioneiro de rastreamento de medicamentos, que será implementado no Hospital das Clínicas. O projeto tem o apoio da Associação Nacional de Vigilância Sanitária, Anvisa, e, se aprovado após um período de testes, deve se estender por todo o País. 

Eduardo Mario Dias é Doutor em Engenharia Elétrica, membro da Comissão de Inovação do Hospital das Clínicas da FMUSP e um dos líderes do projeto. Ele conta que a universidade tem feito um esforço para desmistificar a aplicação das tecnologias 4.0. “Temos um curso de pós-graduação, além de uma disciplina de graduação que explica a aplicação das tecnologias em vários setores. Incentivamos também os alunos a desenvolverem aplicações inovadoras”, explica. 

O Professor Chao Lung Wen coordena o Projeto Homem Virtual, que utiliza computação gráfica e impressora 3D para o desenvolvimento de materiais que ajudem na disseminação do conhecimento científico, tanto dentro da universidade, quanto em escolas, postos de saúde, museus ou reportagens sobre o assunto. Além disso, o projeto produz próteses sob medida que são utilizadas em cirurgias no crânio. 

Papel e caneta

Embora seja um assunto importante na saúde atual, a telemedicina no Brasil ainda utiliza uma regulamentação antiga, de 2002. No início de 2019, o Conselho Federal de Medicina (CFM) trouxe novas regras para o atendimento a distância, mas, após críticas, as medidas foram revogadas.

Além disso, apesar das diversas inovações tecnológicas, muitos profissionais da saúde ainda preferem o velho papel e caneta. Uma pesquisa da Associação Paulista de Medicina (APM) e do Global Summit Telemedicine & Digital Health, feita com 1.614 médicos paulistas, mostra que 49,26% dos entrevistados são contra prescrição eletrônica.

Isso mostra que ainda há um longo caminho a percorrer para transformar a área da saúde no Brasil. “Os processos ainda são lentos e muita gente acha que não precisa de tecnologia, mas a Transformação Digital é para todos”, explica Mirna Machado, diretora executiva da Stefanini Scala.

Uma receita escrita à mão, por exemplo, pode induzir ao erro, uma vez que o paciente ou o farmacêutico muitas vezes não consegue compreender a letra do médico. Com soluções tecnológicas simples e baratas, é possível fazer a teleprescrição com segurança. Assim, o profissional consegue ter informações importantes sobre o paciente em um único lugar, que pode ser acessado de qualquer local.

O desenvolvimento tecnológico também tornou as soluções mais baratas, uma vez que elas podem ser oferecidas como um serviço. Isso faz com que as empresas de pequeno e médio porte, por exemplo, possam ter as soluções necessárias para o tamanho do negócio, promovendo eficiência com um preço justo. “Na Stefanini, trabalhamos para ajudar todos que querem entrar nessa era digital. Nossas soluções agregam inteligência, ampliam a capacidade analítica e aumentam a automação das empresas”, ressalta Mirna. 

A Inteligência Artificial é uma das tecnologias aplicadas na solução Stefanini Health Clinical Intelligence, que permite analisar e comparar milhares de dados para fazer uma gestão inteligente de uma UTI. A ferramenta auxilia no processo decisório e permite reduzir o tempo de internação do paciente ao promover um atendimento rápido e eficiente.

Outra solução é o Stefanini Health Scala, que pode ser utilizado em qualquer área que trabalhe com sistema de plantão. O serviço torna ágil e eficiente o planejamento das escalas, garantindo que os quadros profissionais estejam sempre completos. Há ainda o Stefanini Health Assistant, um chatbot configurável para as necessidades de atendimento e acesso à informação por parte de paciente, familiares, usuários internos, entre outros. 

“Nós temos um processo de cocriação, que envolve ouvir o cliente e trabalhar junto em uma solução que atenda suas necessidades. Assim, estamos preparando novidades, como uma solução que utiliza tecnologia de ponta para a prevenção de infecções hospitalares”, conta a diretora.

Segurança e o futuro

  Além de investir em novas tecnologias, é importante dar uma atenção especial para a questão da segurança. Paralelamente ao crescimento das soluções inovadoras, crescem também os ataques hackers. No início de abril, um hacker expôs dados de 2,4 milhões de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em 2016, a Estônia foi pioneira ao investir em Blockchain para garantir a segurança dos dados de saúde. “À medida em que aumenta a incorporação de uso tecnológico, também teremos cada vez mais riscos, exigindo camadas de proteção de criptografia e segurança cada vez mais sofisticadas”, ressalta o Professor Chao Lung Wen.

A verdade é que se as novas tecnologias forem incorporadas com cautela e de maneira adequada, teremos um futuro em que será possível viver bem e por mais tempo. Conforme afirma o especialista, a medicina se tornará mais conectada e integrada em nuvem, o que facilitará o acesso a saúde. Além disso, o uso da Inteligência Artificial deve tornar a medicina mais precisa, oferecendo tratamento adequado e ágil. 

A impressora 3D produzirá próteses sobre medida e as bioimpressoras com células troncos poderão criar órgãos e tecidos, como o protótipo de coração humano com vasos sanguíneos que foi produzido pela Universidade de Tel Aviv, em Israel. Exoesqueletos, roupas com fibras inteligentes, biochips, micro robôs e nano robôs cirúrgicos são outras promessas do futuro que permitirão uma revolução na saúde.

Mais de 39 milhões de pessoas no mundo têm deficiência visual. Desses casos, 80% são consequências de doenças curáveis. Com as novas tecnologias, esse número tende a diminuir. Um futuro que nem podemos imaginar está se abrindo diante dos nossos olhos.

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