A inovação o maior skill da nova normalidade

08 de Julho de 2020 por Mary Ballesta (*)

Até faz pouco quando eu dizia as pessoas que era Head de Inovação, provavelmente pensavam em mim como uma pessoa que está todo dia tendo ou buscando explosões criativas mirabolantes; inclusive alguém que deve ter tido uma vida muito arrojada para chegar nessa posição. O certo é que nosso clichê sobre o "talento de inovar" tem estado muito orientado a uma fantasia de gênios que conseguiam ideias brilhantes a partir de explosões de criatividade. Esse conceito, acredito (e almejo) acabou para sempre.

A pandemia tem sido uma das maiores revoluções e veio mexer estruturalmente com todas as bases da sociedade, as que achávamos certas e inamovíveis. Toda essa crise recuperou sem querer em todos nós a capacidade de ser inovadores: em um curto prazo de tempo tivemos que reinventar por completo nossa dinâmica do dia a dia. Não havia teorias, não havia frameworks, simplesmente ajustes necessários a serem feitos. A normalidade já não existia e tínhamos que nos adaptar.

Aí vem um pouco do meu ponto; o antigo conceito de inovação como uma genialidade de outro mundo, acaba de ser abolido dando passo a uma forma de ver a inovação mais terrenal, mais realista inclusive. Inovar não é nada mais do que uma capacidade de buscar como sobreviver, se adaptar em um contexto que apresenta novas lógicas, novas práticas e novas formas de atuar pois as velhas formas não se encaixam mais.

Inovar não é apenas se transformar digital ou tecnologicamente; se refere mais a um componente de nova lógica de abordar e operar.

Faz alguns anos que escuto em muitas empresas, conferências e livros o mantra da necessidade da transformação digital, como um caminho para criar formatos novos de atuação, de conquistar clientes que hoje não querem modelos de serviços padronizados que não correspondem com a sua realidade e seus micros momentos. Porém, eram poucos os que realmente entendiam que não era apenas uma necessidade retórica, refere-se a uma condição crítica impostergável de mudar o modelo.

De alguma forma esse ceticismo empresarial sobre a verdadeira urgência de mudança devido ao novo contexto levou a uma inércia de querer mudar, porém esperando que um dia a maçã da inovação caísse na nossa cabeça e Eureka! Somos digitais!

As ideias inovadoras não caem do céu, muito menos a mudança de modelos de atuação

Ao contrário, são pequenos sussurros que vão tomando forma a partir de uma prática diária de experimentação, erro/acerto e aprendizagem criando quase um loop de energia contínua investida para conseguir um movimento de geração de valor e continuidade da organização de cara ao futuro. Assim que para ser digitais não é suficiente esperar ser, é necessário atuar e criar um movimento intencional para conseguir ser.

O que sucedeu nesse caso específico na tendência de transformação digital é que pensávamos que se tratava de uma tendência de tecnologia: o investimento em novas tecnologias, especialmente em canais digitais já nos tornaria inovadores. Porém, a capacidade de se transformar refere-se a pessoas, visão e flexibilidade. Não era a capacidade de crescer de forma incremental com o apoio da tecnologia; era a necessidade de sair do lugar comum e buscar aportar soluções de valor.

De fato, a inovação não é um conhecimento ou um recurso que compramos, se trata de uma qualidade recursiva humana, ou seja, uma condição inata que todos os seres humanos temos para ler o contexto e reagir rapidamente ao cenário. O que acontece nas organizações é que na medida que vamos nos inserindo em certos paradigmas mentais (sejam conhecimentos adquiridos, entornos de trabalho e outros) vamos limitando nosso olhar inovador e buscamos atuar só em decisões conhecidas, que vão criando em nós um cerco que impede uma análise holística e um mindset mais arrojado.

Exercitar a visão de inovação requer de uma cultura que dá espaço a experimentar, mas especialmente requer de indivíduos e líderes dispostos a errar e aprender e também aproveitar as bondades de um mundo que tem alavancas tecnológicas (mas como um recurso e não um fim).

Quando revisamos as empresas mais inovadoras da região, há um elemento que parece se repetir em todas: elas conseguem criar um entorno que apoia uma atitude de reflexão e repensar em seus colaboradores a partir da uma orientação clara para alcançar um propósito (por que e para que estamos inovando) entendendo como ajustar essa ambição para o que está acontecendo fora, no mercado, mas sem dúvida criando espaços onde os colaboradores estejam empoderados o suficiente para experimentar e colaborar novos caminhos para conseguir atingir o objetivo macro do negócio.

Ser um gamechanger, ou seja, um inovador que atinge resultados, se refere a ser uma pessoa/equipe ou organização que a partir de um propósito maior, entende que há oportunidades de melhora no hoje para ir avançando ao futuro, que há novos caminhos que levam obter esse desempenho superior mas que não são certos e por isso deve experimentar até achar a prática certa sem perder o timing; deve fazer o movimento já, ou será tarde.

Para garantir essa rapidez de reação mais do que nunca a associação de capacidades é um atalho que pode conduzir ao sucesso. Entramos na era das plataformas e ecossistemas porque é só a partir de uma visão onde todos podemos conectar nossas capacidades diversas e com elas alavancar a sociedade como um todo, e atender melhor as necessidades transversais dos nossos clientes, e ganhar competitividade e inovar.

Então falamos que em um mundo disruptado pela pandemia, a agilidade ou transformação digital já não são suficientes; o que nos ajudará transitar a nova normalidade será a resiliência, a colaboração e a visão de melhora geral da sociedade a partir das possibilidades estendidas que a tecnologia traz ao jogo.

Esse conceito resgata o que é realmente o conceito de inovação: criar tentativas de ação para obter sucesso em uma nova situação, as vezes tão incerta que não tem garantia de alcançar esse resultado, mas que sim esse movimento haveria um maior risco, maior perda.

As empresas do hoje, são as empresas do olhar do futuro; aquelas que conseguem na adversidade, na crise do hoje se concentrar em criar novas competências, em enxergar as oportunidades que aparecem como sinais do futuro, e que requererão ser exploradas para materializá-las como oportunidades reais de crescimento e sobrevivência.

A inovação é um skill individual e empresarial indispensável que nos leva transitar pela busca de um melhor futuro, com passos que nos impulsionam desde o hoje até o amanhã. Não se apega a teorias, nem é uma exclusividade de alguns setores da economia, é um recurso universal cujo componente principal é a volta ao olhar curioso e inconformista humano de procurar soluções a vida e suas circunstâncias se alavancando, agora, com as capacidades exponenciais que tecnologia possibilita.

(*) Mary Ballesta é Diretora Global de Inovação e Digital na Stefanini

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